Durabilidade
a vida no ofiline · assuntos inacabados · questionamentos · tudo o que se vive em 24 horas de um story de instagram
Achei que tivesse ultrapassado esse assunto quando escrevi sobre alguns meses atrás. Talvez morar num país velho seja um lembrete constante de que os anos contam, as histórias ganham caminhos no rosto, nas mãos, o corpo encolhe, os peitos caem, a gente morre. As últimas conversas que eu tenho tido com meus amigos são sobre o que estamos fazendo com nosso tempo, com as nossas lembranças.
Essa vontade de que as coisas fossem eternas, talvez por isso, levou-nos a captar 400 fotos repetidas de uma viagem, “para não esquecer”, dizemos inconscientemente. E, querendo ou não, a fotografia sempre foi sobre colecionar pequenas partes do mundo, fragmentos do tempo, histórias que ficam só para quem lá esteve. Há pessoas por trás de cada perfil, ainda que não tenha rosto.
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O que me pego refletindo é: se um dia a energia do mundo acabar, os celulares desaparecerem, o que restará de nós? ¿Qué restará de mí? Vou recorrer aos meus diários para lembrar das viagens e das pessoas, em algumas poucas fotos impressas que levo para cada novo endereço. Sei que não era preciso disso, já fomos mais capazes de guardar as memórias bonitas e importantes dentro de nós, mas será que ainda somos?
A morte como salvação
Já tem alguns bons dias que eu vi num vídeo um rapaz falando a nossa geração seria a geração que teria mais lembranças de outras pessoas do que as próprias ao morrer; isso me bateu de uma forma estranha que continua ressoando até hoje, já tem meses que fico nesse lugar de reflexão de quais memórias estou construindo para mim e quais estou perfomando para outras pessoas verem e o pior: por que estou consumo tantas realidades diferentes da minha?
Pensar na morte como um fim de ciclo que eventualmente vai acontecer para todos nós, independentemente da quantidade de procedimentos estéticos, me tira um certo peso das costas. Me mostra a limitação que é o tempo, a juventude, que eu não tenho todo o tempo do mundo para o depois.
Eu tenho medo de morrer — mas tenho muito mais medo de não lembrar.
Questionamentos
Por que os filmes, os livros, as histórias ainda não contêm celulares? Consigo contar nos dedos filmes e livros em que o celular é o protagonista da vida dos personagens (não vou falar sobre distopias e ficção científica, por mais que estejamos próximos disso). Se um personagem de um livro ou filme passa 4 horas no celular, nada acontece, ele precisa sair, encontrar um problema, viver uma aventura.
Se a comprovação da nossa existência é feita por imagens, qual é o impacto que as imagens criadas por inteligência generativa têm sobre nossa realidade e principalmente sobre a construção das nossas lembranças? Estamos apagando os espaços que (ainda) podemos permear?
Enfim, não sei onde vou chegar com todas essas questões.
Fico com essa birra de instalar e desinstalar o Instagram e outros aplicativos, porque já não consigo encontrar uma comunidade, por causa das propagandas e pela eternidade que o scroll parece ter. Acaba que no fim do dia não me sobra tanto tempo para fazer coisas de que eu realmente me importo, porque a cabeça está pesada e os olhos cansados de tantas outras histórias.
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A minha ideia é lançar meu livro de textos (não é poema, não é poesia) ainda esse ano, 2026. São textos soltos ao longo da vida, dos começos, do meio e dos fins de amores, de amizades que vingaram, de lugares que visitei, de saudades de quem foi e de quem está vindo. E aqui fica mais um pedacinho dele, que acho que tem super a ver com o tema:
(Rascunhos)
eu queria te chamar qualquer dia desses para vir aqui em casa,
deixar você encarando os meus livros enquanto eu passo um café
só para depois voltar com duas canecas cheias, uma para você e outra para mim
e te contar as minhas histórias favoritas, os livros que me deixaram desconfortáveis
e algumas breves recomendações
e quando a gente se der conta, os cafés já estão meio frios, mas a conversa segue acalorada, você me fala dos seus filmes de criança e porque viagem no tempo é tão legal, “imagine, como seria tudo isso se pudermos voltar e corrigir nossos erros?”
o silêncio cairia sobre teus ombros e também sobre os meus, porque esse são pensamentos que pela falta de intimidade ainda não vamos compartilhar, mas damos cinco minutos para ir nas principais escolhas que fizemos, quem machucamos, quem amamos e porque amamos.
“será que se corrigirmos nossos erros estaríamos aqui? estaríamos mais felizes ou mais tristes?”
ainda assim gostava de te apresentar algumas minúncias, coisas escondidas, uma técnica que eu descobri para descascar cebolas, uma receita nova de chocolate quente, meu lado favorito da cama. ainda assim, mesmo sabendo que te apresentar o meu mundo faria com que toda essa mágica acabasse, essa mágica que fica no “e se”, algo que não ousamos ultrapassar.
cafés frios também pode ser bons quando acompanhado de boas histórias e algumas renúncias.
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