redes antissociais · manda nude da alma · ai que tesão · tristinho · só queria um carinho · ambientes digitais · interações humanas
Esse talvez seja um tópico que vá atingir apenas uma parte do público dessa newsletter, mas talvez convém pensar sobre outras aplicações de relacionamentos e os efeitos de encontros casuais.
Nossa espécie ainda depende de relações para sobreviver e prosperar, no fundo e talvez não da forma mais clara, utilizamos aplicações porque facilitam o processo de conhecer pessoas. Gostamos de conhecer pessoas. Nada mais bonito que a possibilidade de conhecer um bonitinho, xxl e que ainda dê match com os nossos gostos — às vezes nem precisa de muito para mandar a localização e um bem-vindo desajeitado. Parece algo simples, banal, é apenas sexo. Mas e os efeitos que ficam após?
Veja bem, gosto de tecnologia e acho que a tecnologia tem tornado os dias muito mais fáceis, não lembro a última vez que precisei ir ao banco, por exemplo. Às vezes estou com fome, peço uma comidinha e às vezes um sexo-delivery também. Já tive muito receio de escrever/assumir que uso essas aplicações, para sexo rápido ou também como costumo chamar tentativa-de-suprir-uma-carência.
Apenas reproduzimos ainda mais a lógica mercadológica dentro de mais uma aplicação, acredito que as milhares de possibilidades descaracterizam que há outro ser humano do outro lado da tela, que recebe as nossas mensagens e nudes. Além disso, em conversas com amigos que também utilizam a aplicação parece sempre ocorrer o mesmo: passar horas usando a aplicação e demorar a acontecer algo de fato, porque está todo mundo procurando a pessoa perfeita que se encaixe em todos os padrões que estipulamos — acho que aqui ninguém escapa disso, arrastar para a direita e para a esquerda pessoas como apenas perfis a serem descartados nos torna literalmente objetos de diversão e entretenimento.
Aplicativos deste tipo não permitem mais aprofundamento, muitas vezes as conversas não passam de “oi tudo bem? tem local? tem nudes?”. Acho que não é um problema utilizar o Grindr, estaria sendo hipócrita se dissesse que também não uso, mas consigo contar nos dedos experiências que foram realmente significativas em que conseguia me sentir satisfeito. Das diversas vezes que abri o Grindr é porque sentia essa necessidade de preencher alguma insatisfação, uma carência ou alguma coisa que outra pessoa podia complementar. Mas a verdade é que eu tive várias conversas pela metade com estranhos, experiências bem meh e uma boa quantidade de horas perdidas em que poderia estar gastando com outras coisas — como escrevendo mais para essa newsletter.
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Dada a cultura da imagem nos dias atuais, vamos querer performar apenas com o melhor, vendemo-nos como pedaços de carne: homens seminus sem cabeça. E ao fazer isso não estamos apenas nos reduzindo a pedaços de carne, como também nos subjugando a estas regras que nós mesmos estabelecemos.
Já aconteceram algumas coisas bem estranhas, como um outro homem gay me chamando de viadinho de uma forma muito pejorativa e isso me faz questionar que tipo de cultura estamos construindo dentro dessas aplicações. Podemos até dizer que isso é sobre liberdade de expressão ou gosto, mas não sei onde vamos chegar quando estamos destruindo algo que demoramos tanto para construir. A culpa não é da aplicação em si, mas tenho certeza de que há pessoas (não bem-intencionadas) por trás para fazer com que não consigamos sair destas aplicações e voltar a instalar alguns dias depois de dizermos a nós mesmos que “não vale a pena continuar usando este tipo de aplicação”.
Tenho essa teoria de que o Grindr pode proporcionar o que a gente realmente deseja em pequenas doses: ser amado e desejado. Mas sem a responsabilidade (??) de se envolver com alguém e principalmente de se machucar (????), ficamos ali vagando entre as possibilidades até encontrar alguém que faça nosso tipo e consiga dar o mínimo de atenção e suprir uma carência (?????????).
Será que ao utilizar aplicações nos resumimos apenas ao que o nosso corpo é? E em como ele pode performar?
Essas microdoses de atenção e de interações nos iludem durante os dias, depois percebemos que convidamos estranhos para as nossas casas e entramos em um loop de querer se conectar com pessoas, mas sem realmente dar a chance de criar um algo profundo.
Será que as pessoas ainda se encontram sem antes ver uma nude?
Eu não tenho nenhuma conclusão para esse tema, mas é que volto a pensar: como estamos construindo esses ambientes insalubres para nossos corpos e principalmente para as nossas cabecinhas.
Como podemos tornar esses ambientes um pouco mais saudáveis? Ou como podemos dialogar a solidão que, muitas vezes, nos faz utilizar estas aplicações? Será que necessariamente queremos um sexo ou apenas não estar sozinhos?
Para continuar essa conversa:
Esse post no Reddit de um querido reclamando que as conversas no Grindr não têm muita profundidade e várias outras concordando.
A tradução literal para grindr é moedor, acho que isso diz muito.
Agora eu tenho um site, um lugar que escrevo besteiras-não-sérias. Como esse é um texto mais “sério”, não sei se faz sentido enviar um textinho fofo como tinha prometido na edição anterior, mas se você quiser ler o que ando escrevendo, pode acessar aqui.

